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CARTA DE ACAIACA
Por um campo rico em gente e diversidade

----------Nós, jovens rurais brasileiros, participantes da primeira etapa do II Intercâmbio Nacional da Juventude Rural Brasileira (12 integrantes), iniciativa da Rede de Fortalecimento Institucional do Jovem Rural e do I Intercâmbio Regional da Associação Mineira das Escolas Famílias Agrícolas (AMEFA), com 63 integrantes – eventos realizados de 28 de junho a 11 de julho de 2008, em 15 EFAs espalhadas pela Zona da Mata, Sul, Norte e Vale do Jequitinhonha. Vimos por meio desta carta aberta apresentar as propostas construídas no debate de avaliação das experiências vivenciadas ao longo desse período.

----------Em primeiro lugar, no que diz respeito à questão ambiental, sentimos a necessidade de uma maior atenção de todos os setores da sociedade para a conservação e a utilização racional dos nossos recursos naturais. Sugerimos, assim, que o poder público reconheça as diversas iniciativas da sociedade civil organizada em prol do meio ambiente, articulando-as em uma campanha educativa permanente de conscientização sobre a urgente e necessária preservação de nossas riquezas naturais.

----------Sobretudo, reconheça no fortalecimento da agricultura familiar, o caminho mais rápido e efetivo para a geração de renda no campo de forma sustentável, através, entre outras tecnologias alternativas, da agroecologia e da permacultura. Nesse sentido, torna-se também necessário a crítica aos projetos de impacto ambiental, tais como as construções de barragens sem a devida consulta dos públicos interessados e a expansão de monocultoras produtoras de verdadeiros “desertos verdes”, que colocam em risco as tradições e as potencialidades de uma agricultura familiar diversa e rica (tanto em culturas humanas, quanto agrícolas).

----------Em segundo lugar, no que se refere às políticas públicas de juventude, reivindicamos o reconhecimento desse segmento social na formulação, na implementação e avaliação das mesmas. Mais do que “políticas para juventude”, queremos a construção de “políticas públicas da juventude”. Somente assim, atingiremos dois objetivos que consideramos fundamentais para o fortalecimento do nosso processo democrático: a experiência participativa que prepare os cidadãos para o exercício da democracia; e a reformulação das políticas públicas existentes de acordo com os interesses e as necessidades dos jovens rurais. Nesse último campo, podemos citar, por exemplo, o caso do atual Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar voltado para o jovem (Pronaf-Jovem), de difícil acesso e implementação, devido ao alto nível de exigências, cujos critérios estabelecidos estão distantes da realidade concreta dos supostos beneficiários.

----------Em terceiro lugar, abordamos também a questão da identidade do jovem do campo, que precisa ser estimulada em sua diversidade, porém sem perder o norte de referências que os une enquanto segmento social que necessita de acesso a terra, de reconhecimento de outras formas de produção e, em complemento, de outras medidas de produtividade que não só à lógica mercantil formal e hegemônica. Os jovens rurais precisam estar conscientes destas possibilidades para poderem fazer as opções produtivas, culturais e sociais, que acharem convenientes para a reprodução e produção de seu modo de vida.

----------Em quarto lugar, pensando agora na gestão pedagógica e administrativa das Escolas Famílias Agrícolas (e outras experiências educativas similares), a juventude rural demanda o crescente reconhecimento e apoio dos poderes públicos constituídos, em todos os seus níveis, sem prejuízo à autonomia diretiva da comunidade educativa (famílias, educadores e educandos) sobre o projeto político-pedagógico das respectivas instituições – que estão ligadas a várias tradições alternativas de Educação Popular e do Campo. Nosso grande sonho é que de “alternativas”, essas tradições tornem-se referências para as políticas públicas educacionais pelos resultados concretos que elas vêm trazendo para as populações que hoje sofrem a sua benéfica influência em termos de ampliação de consciências sobre os problemas sociais, assim como sobre a criação de novas oportunidades dignas de se permanecer no campo com qualidade de vida e geração de renda. Mais do que o reconhecimento legal e formal, reivindicamos a efetiva aplicação de recursos públicos, de forma permanente e sustentável, para o fortalecimento e a ampliação dessas instituições.

----------Sob o exposto, nós jovens rurais provenientes de várias regiões de Minas e mais sete estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco e Paraíba) reivindicamos a possibilidade de levar essas questões ao conhecimento das autoridades, inclusive a estas a quem estão sendo dirigidas esta Carta, de preferência numa audiência que estimule um frutífero debate entre o poder público e a este segmento da população que representa. Na oportunidade, inclusive, além dos pontos acima elencados, em prol de um campo rico em gente e diversidade, gostaríamos de expressar nosso apoio à Escola Família Agrícola Bontempo, de Itaobim (MG), que sofre o risco de ter seu trabalho interrompido por questões relativas à propriedade da terra em que se encontra a sua sede. Mais do que um prédio, o que está correndo risco de ser desalojado é o sonho dos mais de 100 jovens e famílias camponesas do Vale do Jequitinhonha, de ter um futuro mais digno e promissor.

Acaiaca, 11 de julho de 2008.

 

 

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